terça-feira, 17 de setembro de 2019

Mistérios de Chiquitos

                                     



O mistério das Músicas perdidas.

Valmir Roza Lima

Quando se viaja por terras estrangeiras, estamos sempre dispostos a conversar com os locais e ouvir estórias pitorescas. Ainda mais quando se viaja por zonas muito antigas e cheias de mistério, como algumas regiões da América do Sul.
Interessante também é a fauna de personagens que surgem dessas estórias, guerreiros, nativos, militares, ladrões de terra, padres, heróis do povo e “belas” mulheres.

Uma das estórias que me marcaram nessas viagens que sempre faço entre Argentina e Bolívia, foi sobre a misteriosa vida de Domenico Zípoli, que é considerado o mais importante compositor das Missiones Jesuíticas.
Sua vida ainda hoje é objeto de pesquisa e eu não conheço uma biografia ou documento oficial, que mapeie de uma vez por todas os passos desse personagem.

Por nome de Domenico Zipoli, sabe-se que nasceu na Itália por volta de 1700, e que  tornou-se um grande mestre de música. Morou em várias cidades europeias e estudou com grandes mestres de sua época.
Dizem os pesquisadores que teria escrito várias obras até atingir a vida adulta, sendo até reconhecido como um compositor de certa importância.
Daí em diante sua vida é um mistério.
Pra resumir a história, em um certo período o nosso personagem, não apareceu mais em  nenhum documento e não se tinha mais noticias de novas obras musicais escritas por ele.

O tempo passa e com o tempo, as obras de Domenico Zipoli, vão sendo esquecidas e os documentos que citam o músico, vão se tornando coisas do passado. Por fim, a Europa segue seu destino e o nome do músico vai sendo ofuscado pelas  novidades do novo mundo ”Lembre-se que estamos no século XVIII época de grandes mudanças”, até que ele é dado como desaparecido.
 


     Mapa da Chiquitania

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    Construção tipica da região

     Rua de San Javier


    Colunas de madeira em San Inácio



No ano de 1941, um pesquisador Uruguaio, por nome Lauro Ayestarán, investigando documentos antigos, descobriu que o Maestro desaparecido na Itália, na verdade teria vindo como missionário jesuítico para a América do Sul, e teria vivido na província de Córdoba na Argentina, onde teria morrido em 1726 depois de compor várias obras musicais juntamente com os nativos da região.

Porém essa estória não termina aí !
Esse mistério nos leva agora pro interior da Bolívia, mais precisamente pra região da Chiquitânia.”Chiquitos”
Eu já andei por vários povoados dessa região e já ouvi várias versões dessa mesma  estória que vou narrar a seguir:

Na década de setenta, houve um grande trabalho de restauração em várias igrejas e construções originais que teriam servido as missões jesuíticas  nos povoados de Chiquitos entre os anos de 1696 e 1760.
Nesse trabalho, foi encontrada uma câmara secreta com documentos antigos e entre esses documentos cinco mil partituras musicais.

E adivinha! muitas dessas músicas, foram atribuídas ao nosso personagem Domenico Zipoli, que deve ter tido uma vida muito interessante e aventurosa, pois na sua meia idade, partiu da Europa em direção à América do Sul, recém descoberta, e se aventurou a evangelizar e fazer música com os nativos.

Chiquitos hoje é uma região muito conhecida na Bolívia e famosa por suas escolas de música. Uma série de povoados em plena selva perto de Santa Cruz, onde de dois em dois anos, é realizado um dos maiores festivais de música sacra do mundo.


Rabecas antigas em San Javier






     Fundação das cidades na América Espanhola












Igreja em San Javier


Em Chiquitos as obras de Domenico Zipoli são executadas por centenas de grupos indígenas em um formato europeu como coral, orquestras, quartetos etc...e ele é considerado o compositor que mais representa as reduções jesuíticas, mas por ironia do destino, creio que ele não chegou a conhecer essa região, pois suas obras chegaram à Chiquitos pelas mãos de outros padres que provavelmente vieram da região em que ele vivia na Argentina.
Outros dizem que ele chegou a passar por Chiquitos, será que ele esteve por ali também ??
Essa história é muito conhecida pelos amantes da música sacra, e já virou lenda.
A lenda das músicas perdidas.

Assim é a Bolívia!  com muito mistério ainda por ser desvendado.



Valmir Roza lima

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

                              

                    Rabecas no Chile

       Valmir Roza Lima





Nesse ano de 2019, depois de passar pela Argentina e participar pela terceira vez da peregrinação de Cuchillaco em Humahuaca, desci em direção a Mendoza e atravessei o “Paso los Libertadores”, uma das fronteiras mais bonitas da America do Sul, rumo ao Chile.
Fui convocado para construir algumas Rabecas para uma orquestra estudantil em Valparaíso, linda cidade portuária onde tenho alguns amigos.

Já em Humahuaca, eu estava preocupado com a fronteira Chilena, pois passaria com ferramentas e na certa teria de pagar alguma multa ou talvez minhas ferramentas ficassem apreendidas, e elas seriam necessárias  pra eu construir as Rabecas em Valparaiso.
Na Bolívia e na Argentina, não tem muito problema, mas a aduana Chilena é muito exigente.
Nenhuma aduana gosta que passes com ferramentas, pois é um indicio de que vais trabalhar.

Porém apesar da preocupação, passei tranquilo com as ferramentas acomodadas estrategicamente na bagagem.








Casa de Marité



Cheguei em Valparaíso numa manhã ensolarada e ao sair do terminal de bus ainda meio confuso num misto de alívio, cansaço e alegria, encontrei a Avenida Pedro Mont repleta de gente, paisanos, vendedores, senhoras apressadas e estudantes enchendo as calçadas.

Segundo o combinado com Maria Carolina, inicialmente eu ficaria hospedado com sua mãe Maritê, até que nos encontrássemos e acertássemos os detalhes da construção das Rabecas.
Porém, Maritê já era minha amiga, pois possui um hostel no cerro Artilheria, onde eu e a Sandrinha já nos hospedamos a alguns anos atrás, e pra lá eu me dirigi rapidamente.

Depois do descanso, tivemos uma pequena reunião na praça do bairro, onde ficou tudo acertado. Maria Carolina estava com obras em sua casa, portanto Maritê me hospedaria em um quarto sem custos  e eu construiria as Rabecas ali mesmo num pequeno porão de sua casa.Claro que receberia pelo meu trabalho, o preço das Rabecas já estava combinado desde antes da viagem.



Marité


Nas ruas de Valparaíso se vende de tudo e foi na rua Uruguai, famosa por seus vendedores “Callejeros” que eu comprei as ferramentas que faltavam pra iniciar a construção das Rabecas.
Foram quatro semanas de intenso trabalho, eu me levantava cedo, tomava chá com tortilhas e descia para o porão pra fazer Rabecas, Eu fazia meu almoço e jantar, ou fazíamos coletivamente entre os hospedes.


Tive tempo de passear, andar pelo bairro e fazer amizades por ali, foi um tempo muito proveitoso.
A casa de Marité é sempre cheia de viajantes, nessa época em que estive lá, haviam muitos trabalhadores Venezuelanos, Argentinos e até Chilenos mesmo. Sempre chegava gente nova.
Adorava passar horas conversando com Maritê sobre as tradições e a cultura Chilena, aprendi muito com ela e sempre a terei como uma amiga querida.

Quem conhece Valparaíso sabe de seus inúmeros cerros, um mais lindo que o outro, todos muito coloridos e cheios de grafite, a cidade vive numa atmosfera artística o tempo todo, com músicos de rua em toda parte, nas praças nos ônibus e nos restaurantes, gente ensaiando dança nas praças, é uma loucura! Andar nos tróleibus ou passar as tardes sentado no porto, observando as aves também é um programão.







Meu porãozinho










Voltemos às Rabecas.

Maria Carolina Lopes Gajardo é integrante do grupo “ Las del Puerto”, e como as outras integrantes  também é professora de música.
Dirige a Orquestra Estudantil da Universidade Federico Santa Maria e está montando uma Orquestra Latino Americana, ou seja, uma Orquestra, com os instrumentos convencionais, agregando os instrumentos populares, como queña, charango, bumbo, rabel e ela me pediu algumas rabecas, pois vai fazer um naipe de Rabecas Brasileiras e Rabeles Chilenos em sua Orquestra.
Isso porque existem temas antigos que tem de ser executados com instrumentos originais, eu achei fantástico.


Mergulhei de cabeça nesse projeto e fiz quatro Rabecas com madeiras encontradas no porão de Maritê.
Nesse meio tempo, ainda gravei um depoimento falando sobre  Rabecas, Violas e cultura caipira pra Fundação Margot Loyola, que é dirigida pela minha amiga Maria Eugênia Cisternas.
Fiz uma pequena apresentação na Universidade, visitei minha amiga Ana Flores, grande conhecedora do folclore Chileno, e passei uma tarde, conversando e tocando com minha amiga Viviana Morales, grande folclorista também.


Ah ! e testemunhei o meu primeiro tremor de terra, apesar de sempre viajar por lugares sujeito a tremores eu nunca tinha sentido um, Valparaíso. foi o meu primeiro.

Valparaíso me marcou de um jeito inesquecível, foi o primeiro lugar em que eu construí Rabecas longe de minha oficina.
























sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Escola Raul Cortazar Salta Ar


Rabeca na Escola

Eu e minha amiga Maria Soledad



Limpando Cabaça


 No começo de Junho, quando voltava de minha viagem ao Chile,  passei por Salta e tive uma ótima experiência na Escola Raul Cortazar que fica no bairro Bancarios, bem pertinho do complexo "El Tribuno" e da minha querida Rádio Salta.

No ano anterior em 2018, por ocasião do Encontro de Luthiers em Salta, eu conhecí a professora Maria Soledad, e o seu coral infantil, que cantava músicas em língua Guarany. Agora em 2019 eu retornava pra uma visita.

Com a professora, Maria soledad, eu conhecí também Andréa, uma mulher Ava Guarany, que pertence a uma comunidade mais ao norte de Salta, já caminho da Bolívia.


Andréa me disse que seu pai foi o último tocador de Rabeca de sua comunidade, e ela dizia que o som da minha Rabeca fazia ela recordar de sua juventude. Depois do falecimento de seu pai, ninguém mais  na comunidade Ava Guarany de Salta fez ou tocou uma Rabeca.



 Apresentação na Casa de Cultura de Salta



A professora Maria Soledad, queria proporcionar aos seus alunos a experiência de ter um contato direto  com a Rabeca, e então planejamos uma oficina.
Eu iria construir duas Rabecas de Cabaça, no quintal da escola, e os alunos iriam assistir partes do trabalho e também iriam interagir de várias maneiras.

Combinamos do jeito que eu mais gosto, me instalei no camping Carlos Xamena meu camping favorito, a professora arranjou uma bicicleta emprestada e estava tudo pronto pra oficina.
Eu fazia o café da manhã no camping, ia e voltava de bicicleta e almoçava na escola.

Foi uma experiência ótima. Muito bom ver a curiosidade das crianças e a escola tem uma energia muito positiva.
O pessoal da escola é muito profissional e se dedicam de corpo e alma às crianças.
A escola abriga um museu sobre o universo Guarany, e tem até duas Rabecas do Chaco Argentino em seu acervo
As  nossas Rabecas estão prontas e ficaram para serem utilizadas na escola.


O próximo passo no ano que vem é ir até a comunidade de Andréa e fazer Rabecas com os artesãos de lá, quem sabe eles não voltam a tocar novamente, pois a Rabeca  sempre fez parte da cultura Ava Guarany, até  a morte do papai de Andréa, o último Rabequeiro.





















 Maria Soledad e Andréa 



quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Cuchillaco 2019


Virgen de la Candelaria
Humahuaca Jujuy Ar




Em abril desse ano, pela terceira vez, eu participei da peregrinação à Virgencita de Cuchillaco, com meus amigos da família Ninaja em Humahuaca, na Quebrada Nortenha.

Trata´se de uma caminhada, pelas montanhas até uma capela ha uns quatro mil metros de altitude, onde os peregrinos acampam, armam uma cozinha comunitária e  por três dias rezam, confraternizam com amigos e parentes e no final trazem de volta a Virgem para o povoado de Humahuaca.

 O objetivo maior é trazer de volta a imagem da santa que já subiu a montanha no começo do mês , com o início das festividades.
Tudo isso ao som de dezenas de bandas de Sikuris.


Primeiro amanhecer em Cuchillaco

A família Ninaja tem a tradição de limpar e manter as pequenas trilhas das encostas  livres e seguras, para os peregrinos passarem com os andores e as bandas com os seus enormes tambores, pois são caminhos selvagens que ficam isolados todo o resto do ano. É preciso fixar as pedras, abrir novas picadas e tudo mais.


Pra cumprir essa tarefa, todo ano , sobem a montanha, uns cinco dias antes pra preparar o terreno, e essa é a terceira vez que os acompanho.
Seria uma tarefa fácil, pois eu sou um homem rústico e acostumado à batalha, mas numa altitude de quatro mil metros, não é fácil. Falta oxigênio e ficamos mais pesados e fracos, o simples ato de caminhar já é penoso.
Quem vem de outros lugares " mais baixos ", não consegue ficar nesse ambiente, tem dores de cabeça e vomitam toda hora.
Eu felizmente sofro uns dois dias, mas consigo me adaptar, inclusive já pedalei em altitudes como essa.

 Foi mais um ano em Cuchillaco, graças a amizade e o companheirismo dos meus amigos , que são a minha família, quando estou longe de casa.


Café antes da batalha



Cardones, um simbolo da puña Jujeña



Falta de ferramenta , não é desculpa



 O trabalho era duro, mas toda tarde assávamos um Cordeiro



 Missa Campal








 
Cozinha da festa